Depois de anos sendo um pop culture junkie, finalmente resolvi canalizar minhas energias em algo útil (assim, dependendo da sua perspectiva). Esse blog tem, portanto, o objetivo de documentar quem está causando na cultura pop mas não comentando do óbvio e sim antecipando tendências e o que está por vir. E-mail me @ tacausando@gmail.com. Mais sobre a nossa proposta.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Opan Ganganam style: PSY e K-pop no Ocidente

Esse último mês foi bom para os que curtem uma boa meme. Tivemos Dona Cecília e seu Jesus restaurado e, claro, Nissin Ourfali. Mas, nas últimas semanas, é o rapper coreano PSY que tem monopolizado os feeds de Facebook e as timelines no Twitter.

Gangnam Style virou um sucesso viral, acumulando mais de 200 milhões de views no Youtube. Mais do que isso, a música virou a primeira canção em língua estrangeira a alcançar o topo do iTunes estado-unidense. Mas como ele conseguiu isso?


Simples: boca a boca. A música virou um enorme hit no Youtube e, rapidamente, a imprensa mundial começou a falar na música. Katy Perry, Vanessa Hudgens, Robbie Williams, Tom Cruise, LMFAO, Ryan Seacrest e Britney Spears foram alguns famosos que comentaram o vídeo nas redes sociais. Com todo o burburinho, a música alcançou o top 20 no iTunes estado-unidense e se tornou o vídeo mais assistido do Youtube.

Daí PSY teve uma ajudinha extra do timing: a música explodiu no começo de setembro, bem na época que todos os principais programas americanos estão voltando de um longo hiatus de férias. E não deu outra: PSY e seu hit pegajoso foi tema de todos eles.

Gangnam Style foi tocado durante a premiação da MTV, os VMAs, onde PSY fez a dança com Kevin Hart, o apresentador. Depois, no talkshow de Ellen DeGeneres, ele ensinou Britney Spears a famosa dançinha. E ainda teve uma aparição no programa matinal mais visto dos EUA, o Today Show, e num sketch na estréia de temporada do prestigioso Saturday Night Live além de uma apresentação surpresa durante um jogo de baseball no Dodgers Stadium. Com toda essa onda de promoção, o astro coreano desbancou Taylor Swift e seu mega hit Never Ever Getting Back Together, que passou duas semanas no topo das paradas, e se transformou na música mais vendida dos EUA.


Além disso, Scooter Braun -- empresário de Justin Bieber e Carly Rae-Jepsen -- assinou com o astro coreano e a música está no top 20 do iTunes do mundo inteiro. Ah, e Latino, que adora regravar esses sucessos virais (vide Dragonstea Din Tei e Danza Kuduro), também já fez sua versão.

Gangnam Style alias é uma referência ao distrito de Gangnam, que é o bairro mais luxuoso e badalado de Seoul, a capital da Coréia do Sul.  Alias, no país de origem dele a música também arrasou, né? Vejam o vídeo abaixo e vejam os coreanos -- timidos e recatados por natureza -- se acabarem no estilo Gangnam.


Ironicamente, PSY conseguiu, sem nenhum esforço, o que todos os principais artistas coreanos estão tentando fazer faz anos: conquistar o mundo.

Para quem não sabe, K-Pop, o pop sul-coreano, é o gênero mais badalado na Ásia e, com a explosão de novelas e músicas do país, o continente inteiro foi dominado pela chamada Hallyu wave (onda coreano). Nas Filipinas, em Taiwan, na Malásia, na Indonésia, em Singapura, na China e, mais importante, no Japão (de longe o mercado mais lucrativo da Ásia), a Coréia e suas estrelas são verdadeiros fenômenos. Em Tokyo e em Shanghai, os principais artistas coreanos fazem shows em estádios gigantescos e as novelas coreanas vendem milhões de DVDs e são exibidas em todos os principais canais abertos da região. E, mais do que vender CDs, DVDs e revistas, eles estimulam a economia sul-coreana como um todo e, por isso, até o governo local tem investido pesadamente na promoção desses artistas. Seoul tem recebido milhões de turistas asiáticos (principalmente mulheres japonesas) que gastam uma fortuna na cidade e multinacionais  coreanas, como a Samsung e a LG, tem se aproveitado ao máximo dos rostos famosos das celebridades locais.

Desde então, todas as principais agências de talento sul-coreana estão tentando conquistar o Ocidente.

Em 2006, Rain, na época, o maior fenômeno do K-pop, deu os primeiros passos na expansão ocidental quando ele se apresentou para 8 mil pessoas em Nova York e apareceu na lista das 100 Pessoas Mais Influentes do Mundo da revista Time. No mesmo ano, a agência YG Entertainment juntou seus principais artistas para shows em Washington, Los Angeles e NY e, no ano seguinte, tentou lançar seu maior astro, Se7en, no mercado americano.

Em 2008, a SM, principal agência da Coréia do Sul, entrou nos EUA. Como BoA foi a primeira artista coreana a explodir no Japão, foi decidido que ela seria a primeira a ser lançada nos EUA. Um álbum, com colaboração de vários dos mais badalados produtores, foi lançado porém totalmente ignorado pelo grande público.

Apesar de todas as tentativas high profile de lançar artistas coreanos nos EUA terem sido mal sucedida, as agências não pensam em desistir.

 
Um billboard em Times Square anuncia a chegada do SM Town em Nova York e a gigantesca multinacional sul-coreana LG

A SM Entertainment está colocando todas as fichas nas Girls Generation, o maior girlgroup da Ásia no momento. As meninas já lançaram seu primeiro single, The Boys, e apareceram em dois dos mais prestigiosos programas dos EUA, o Live! with Kelly e o Late Show with David Letterman, além do badalado programa francês Le Grand Journal. Além disso, o SM Town, concerto que reúne todos os principais nomes da agência (Girls Generation, BoA, as boybands Super Juniors, Shinee e TVXQ, entre outros) fez três shows em importantes arenas no país, encendo o Madison Square Garden de Nova York, o Staples Center, em Los Angeles e o Honda Center, em Anaheim, vendendo um total de 45 mil ingressos para as três apresentações. Na Europa, 8 mil ingressos foram vendidos para o show da agência em Paris.

Já a principal rival da SM, a YG (que, alias, são os "donos" do PSY) também não está perdendo tempo e está investindo tudo para explodir seus dois maiores nomes, a girlgroup 2ne1 e a boyband Big Bang, no mercado ocidental. Will.I.Am foi contratado para produzir o próximo álbum das meninas do 2ne1 e Jeremy Scott, badalado estilista, é responsável pelo look delas. As meninas ainda são uma das estrelas da nova campanha global da Adidas e encheram 8 mil pessoas no Nokia Theatre de Los Angeles e 11 mil no Prudential Center em New Jersey. Já o Big Bang irá tocar para 12 mil pessoas no Honda Center e 14 mil em New Jersey em novembro. Em Londres, 20 mil ingressos foram vendidos para dois shows na Wembley Arena.


Ah, e a YG também está de olho no Brasil: o Big Bang irá se apresentar em São Paulo no final do ano, após um show em um estádio em Lima, no Peru. O Peru é, alias, o primeiro mercado sulamericano conquistado pelos coreanos e é o unico país do ocidente onde novelas sul-coreanas são exibidas na TV aberta.

Mas, quando o Big Bang chegar ao Brasil, eles não terão a honra de ser as primeiras estrelas coreanas a fazer um show em território nacional. A agência Cube já trouxe a boyband Beast e o girlgroup 4 Minutes para um show para 4 mil pessoas em São Paulo no fim do ano passado. São Paulo e Londres (onde as estrelas coreanas se apresentaram para 5 mil pessoas) foram as unicas paradas das estrelas carro chefe da Cube fora da Ásia.

A emissora pública sul-coreana MBC é outra que está investindo pesadamente no Kpop, organizando um festival em Sydney, no ANZ Stadium, o maior estádio da Austrália, e um show para 3 mil pessoas na IndigO2 em Londres, durante as Olimpíadas. Outras companhias asiáticas também estão organizando outras apresentações em capitais européias.

Porém, apesar de todos os investimentos, o K-pop continua sendo um gênero de nicho no Ocidente. Alias, não deixa de ser irônico que, enquanto as companhias sul-coreanas desembolsam milhões na promoção das Girls Generation e do Big Bang, foi PSY, que não tinha nenhuma ambição de explodir no Ocidente, que conseguiu o primeiro hit mainstream mundial.

Alias, PSY podia servir de lição para as agências coreanas. O rapper estourou pois sua música, além de ser hilária e pegajosa, era diferente o suficiente para se destacar no meio das centenas de popstars americanos. Os superstars coreanos, apesar de serem ótimos cantores e dançarinos, são genéricos as they come: hits influenciados pela música urbana americana, produzida por suecos. E, quando o assunto são superstars genéricos, os coreanos não tem nada a acrescentar, uma vez que o Ocidente já tem os seus próprios.

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