Depois de anos sendo um pop culture junkie, finalmente resolvi canalizar minhas energias em algo útil (assim, dependendo da sua perspectiva). Esse blog tem, portanto, o objetivo de documentar quem está causando na cultura pop mas não comentando do óbvio e sim antecipando tendências e o que está por vir. E-mail me @ tacausando@gmail.com. Mais sobre a nossa proposta.

terça-feira, 23 de março de 2010

Perdendo a linha (parte 1)


Alexis Neiers, 18: Reality star, modelo e, nas horas vagas, criminosa.

Com a estréia de dois reality shows, a minha suspeita de que os produtores americanos desse tipo de programa tinham perdido qualquer tipo de limite foram confirmados.

Tá certo que limite e reality shows (especificamente os estado-unidenses) nunca foram termos compatíveis. Afinal, eles nunca tiveram nenhum tipo de comprometimento com a realidade, nunca esconderam o fato de serem scripted, sempre estrelaram pessoas extremamente barraqueiras e sem noção...

Pois é. E nós, inocentes telespectadores, achavamos que já tinhamos visto de tudo. Não é verdade. Dois realities vão muito além de tudo que parecia aceitável (e "aceitável" é um termo usado bastante loosely no mundo dos reality shows, então você tem que se esforçar MUITO para ser considerado "não aceitável"):

O primeiro deles, Pretty Wild, exibido pelo E!, (onde também é exibido Kendra e Keeping Up with the Kardashians) tem como foco as irmãs Gabby, Alexis e Tess, três belas jovens de 16, 18 e 19 anos respectivamente. As irmãs vivem num subúrbio rico de Los Angeles e as duas mais velhas trabalham como modelo. Para ser sucinto: elas são Paris Hilton wannabes e o programa iria mostra-las bombando nas boates cool de L.A. e fazendo absolutamente qualquer coisa por atenção. E, né? Gente bonita, rica, sem vergonha na cara e barraqueira é tipo uma das coisas favoritas dos telespectadores americanos, uma receita para o sucesso.

O fato de Tess não ter nenhum grau de parentesco com as outras duas garotas não é mencionado no primeiro episódio (de acordo com Andrea Neiers, numa entrevista para Vanity Fair, ela cria Tess desde 2003. Até recentemente, as duas mais velhas se apresentavam como "gêmeas") mas OK, nós já estabelecemos que os reality shows americanos são completamente roteirizados e ninguém parece se importar muito (e parece que, em episódios futuros, o fato dela não ser filha biológica será revelado. ~Oh the dramaa!~). Além disso, elas não terem nenhuma relação sanguínea dá uma interpretação menos pertubadora para o beijo hot de Alexis e Tess no filme direto para DVD Frat Party.

Então, o que faz de Pretty Wild um programa tão absurdo? O que o difere de outras centenas de realities sobre garotas burras, ricas e desesperadas por fama? Seria a idade das jovens, consideravelmente mais novas do que as protagonistas de outros realities similares? O fato de, todas as manhãs, elas tomarem um Adderall como café da manhã e treinarem seus dotes como pole dancers num poste instalado na sala? Delas serem educadas em casa pela mãe, uma ex-modelo de lingerie, com base no DVD de O Segredo? (sim, NÃO É NEM NO LIVRO!)


As estrelas de Pretty Wild: Alexis, Gabby e Tess

Wrong. O que faz de Pretty Wild tão absurdo é o fato de Alexis ser um dos seis jovens privilegiados acusados de roubar a casa de celebridades como Orlando Bloom, Megan Fox, Paris Hilton, Rachel Bilson, entre outros. Sim, basicamente, ela é uma criminosa.

Quando os jovens foram descobertos, só o piloto do programa tinha sido gravado. Evidentemente, a controvérsia não fez com que o E! desistisse de colocar o programa no ar. Pelo contrário, eles remodelaram o programa para incluir o drama de Alexis.

Pois bem, vamos fazer um breakdown do primeiro episódio:

Fica claríssimo a intenção dde recriar o sucesso de Keeping Up with the Kardashians (que, como o LA Times concluiu, se deve a dinâmica familiar). Portanto, o fato deles serem uma "família extremamente unida" é esfregado na nossa cara durante todos os 23 minutos que o primeiro episódio dura (apesar de todas as cenas mostrando a união e o amor que eles sentem um pelo outro serem obviamente falsas).


Com
Pretty Wild, o E! tenta recriar o sucesso das Kardashians.

A mãe, Andrea, foi uma modelo de lingerie que, de acordo com a própria, posou a lot para a Playboy durante os anos 80. Apesar de, obviamente ela não dar a mínima para as garotas e só ter uma intenção, transforma-las em celebridade, o reality show a pinta como uma "mãe extremamente preocupada e super protetora" (case in point: numa cena, a irmã mais nova observa que "você nem ligou quando elas sumiram durante 4 dias". Em outra, nós vemos Andrea ligando muito preocupada para as filhas quando elas não chegam da balada antes da meia-noite. Verossimilhança, não trabalhamos).

Ela também é a empresária de Tess e Alexis (óbvio) e, no primeiro episódio, leva as meninas para um casting para ser garotas propagandas de uma marca de lingerie.

O teste é posar sensualmente vestindo uma variedade de calcinhas e sutiãs, o que as garotas fazem felizes da vida e, claro, ambas são contratadas imediatamente para serem o "rosto" da grife por dois anos. Mas a executiva diz que a marca é muito cheia de integridade e, claro, elas precisam se comportar de acordo.


Not a regular mom, a cool mom: Andrea, a matriaca.

Enquanto Tess e Alexis são mostradas como completamente selvagens, sempre caindo na night, fazendo pole dancing e mostrando as calcinhas fio-dentais, a irmã mais nova, Gabby, interpreta o papel da "responsável". Apesar de tudo no programa ser bizarramente fake, Gabby consegue se sobressair: a menina de 16 anos é uma PÉSSIMA atriz e, ao longo de todo episódio, está claro que TUDO que sai da boca dela é roteirizado.

Além de Andrea dar aulas caseiras para as garotas baseadas nos ensinamentos do DVD (!!) de O Segredo (!!!), ela também tem sua própria oração onde pede proteção de Deus e que termina com, vejam só que prático, a catchphrase da família: "So it is". Obviamente, esse bordão (e provavelmente todo o resto da oração) foi criada pelos produtores mas enfim...

E o drama de Alexis? Vemos tudo: a L.A.P.D. (polícia de Los Angeles) chegando na casa, a família desesperada porque ela irá passar uma noite presa, etc. Detalhe: NADA é verdadeiro, 90% das cenas são simulação. E como eu sei que é simulação? Eles avisam? Não, é claro que não, mas tudo foi captado de maneira tão perfeita e tão pré-planejada que, mesmo se as câmeras ficassem seguindo a família 24 horas por dia, 7 dias por semana (o que, obviamente, não é o caso), seria impossível eles terem tudo registrado de maneira tão polida. Além disso, o "desespero" da mãe e das irmãs é tão absurdamente falso e mal atuado que seria meio triste se eles realmente tivessem filmado tudo enquanto a garota de 18 anos estava presa.


Tess e Alexis: até alguns meses atrás, elas se diziam gêmeas

É difícil apontar quais são as cenas mais absurdas do episódio mas, sem duvida, uma delas é quando, no carro, a caminho da delegacia, a mãe, falsamente desesperada, observa que "oh meu Deus! Centenas de câmeras e paparazzos estarão lá!" e a filha mais nova diz "AI NÃO!!". Hahaha. Primeiro que a ambição da família é ser famosa. Segundo que esse "AI NÃO!!" é exclamado na frente das câmeras, o que é bem irônico.

Claro que, no mundo real, existem centenas de evidência provando que Alexis tem sim tudo a ver com os roubos (sobre os quais você podem ler a respeito
nessa extensiva e completa matéria da Vanity Fair que inclusive confirma -- como se houvesse necessidade de confirmação -- que o reality é scripted) . Porém, os reality shows americanos não se passam no mundo real e sim em uma espécie de realidade alternativa. E, na realidade de Pretty Wild, ela só "andou com as pessoas erradas" e não tem absolutamente nada a ver com o crime.


Tess escolta Alexis na saída da delegacia

Evidentemente, Alexis é demitida da campanha de lingerie (aparentemente ser acusada de crimes não combina muito com a imagem de "integridade" que parece ser toda a base da indústria de calcinhas e sutiãs). Porém, Tess, a mais velha, mantém o contrato. E, numa das cenas finais, vemos ela desfilando num fio-dental enquanto toda a família grita, se abraça, chora e repete "ELA É NOSSA IRMÃ!!" e "ELA É MINHA FILHA!". Porque, claro, é importante bater na tecla que ELES SÃO UMA FAMÍLIA UNIDA.

O programa chega ao fim com Tess, Gabby, Alexis, Andrea e o padrasto reunidos num gazebo. Eles conversam sobre a importância de se manterem unidos e declamam seu amor uns pelos outros, nos lembrando mais uma vez que, assim como as Kardashians, ELES SÃO UMA FAMÍLIA UNIDA. O episódio conclui com o padrasto usando o bordão da família: "so it is".

Toda a falsidade, futilidade, hipocrisia e falta de verossimilhança e de noção podem ser vistas em centenas de outros realities (Keeping Up with the Kardashians, The Hills etc e tal). Infelizmente, nesse aspecto, Pretty Wild não traz absolutamente nada de novo. Porém o que difere esse programa de todos os outros é, uh, o fato da protagonista ser uma criminosa (por mais que eles tentem fingir que não).


Controvérsia não ajudou os Heene a descolarem o próprio reality

Lembram do caso do Balloon Boy? Nesse famoso episódio, uma família de Colorado fingiu que o filho mais novo estava dentro de um balão de hélio que voava a centenas de kilometros por hora. Eles mobilizaram helicópteros da polícia e uma quantidade enorme de equipes televisivas para, no fim, tudo ser revelado como uma grande farsa cujo objetivo era acelerar a criação de um reality show estrelando-os.

Depois que eles foram desmascarados , o episódio de Wife Swap em que eles apareciam foi tirado do ar. Além disso, o programa que estava sendo desenvolvido para eles foi cancelado e todos os produtores se desvincularam da família.

Dois meses antes, um dos concorrentes do programa Megan Wants a Millionaire (cujo objetivo era achar um marido rico para Megan Hauserman que, ironicamente, ficou famosa participando de reality shows), o canadense Ryan Jenkins, foi acusado de matar sua esposa (outra prova que reality shows americanos se passam numa realidade alternativa: o cara que procurava uma namorada era, na verdade, casado). A VH1, canal que exibia o programa, teve o bom senso de tirar o programa do ar (e vejam só que engraçado: existem indícios, nunca confirmados, que ele acabou em segundo lugar).


Mugshot
de Ryan Jenkins: assassino e reality star


A terceira temporada de I Love Money, programa onde ex-concorrentes de diversos reality shows do VH1 passam por desafios em troca de um alto prêmio em dinheiro, também nunca foi exibida. Jenkins era o grande vencedor da edição. Alias, é engraçado como nos EUA eles conseguem evitar que os ganhadores dos realities vazem: o programa tinha encerrado as gravações em agosto e só entraria no ar quatro meses depois, em janeiro. Aqui no Brasil, até a ganhadora da primeira temporada de Brazil's Next Top Model, que ninguém nem assistiu, vazou antes da final (outro reality show pré-gravado que teve seu ganhador revelado antes da hora: No Limite 1).

Outra informação curiosa: Flavor of Love, onde o rapper Flavor Flav procurava namorada, deu origem a I Love New York (mostrando a busca da concorrente mais sem noção, New York, pelo seu próprio namorado) que, por sua vez, deu origem a Real Chance of Love (onde os dois participantes mais sem noção, Real e Chance, também iam atrás de namoradas), New York Goes to Hollywood (onde New York tenta a fama. Mas ela já não é famosa? Como já disse, esses realities se passam em realidades alternativas), New York Goes to Work (onde ela tenta achar um emprego normal) e Frank the Entertainer... in a Basement Affair (o dating show de outro ex-concorrente de I Love New York).


Nunca acaba: Flavor of Love deu origem a mais de 10 spin-offs

Flavor of Love
também deu origem a Flavor of Love: Charm School, onde as ex-concorrentes barraqueiras tinham aula de etiqueta com a Mo'nique (que, vejam só, ganhou um Oscar esse ano por Precious. Ascensão social much?) e Rock of Love, o dating show de Brett Michaels, do Poison. Rock of Love deu origem a Daisy of Love, Meghan wants a Millionaire e Rock of Love: Charm School. Finalmente foi criado, I Love Money e Ricki Lake's Charm School,
ambos envolvendo ex-participantes de todos esses programas. Ou seja, de um reality, o VH1 criou 184772742 spin-off.

Enfim, super me desviei do assunto, mas voltando ao principal: até recentemente, as emissoras estado-unidenses tinham algum nível de integridade. Not anymore, agora a bela Alexis tem toda sua trial glamurizada no E!.

Para os curiosos, aqui está o primeiro episódio de Pretty Wild. E assistam sem medo, eu sei que todo mundo ama um trainwreck, eu não irei julga-los por gostar.

E so it is, vou interromper esse post aqui. Em breve, a parte 2 onde eu irei falar mais um pouco desse mundo louco que são os reality shows americanos (BBB é brincadeira de criança em comparação) e apresento a vocês o segundo programa que, na minha opinião, prova que não existe mais limite na busca por audiência. Estribeiras têm, mas acabou.


Not so pretty: Mugshots dos envolvidos na Hollywood Burglary. Alexis é a última a direita na primeira fila.

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